Domingo, 29 de Abril de 2007
A Éstoria de João e joana

Meu leitor, o sucedido

em Lajes do Caldeirão

é caso de muito ensino,

merecedor de atenção.

Por isso é que me apresento

fazendo esta relação.

 

Vivia em dito arraial

do país das Alagoas

um rapaz chamado João

cuja força era das boas

pra sujigar burro bravo,

tigres, onças e leoas.

João, lhe deram este nome

não foi de letra em cartório

pois sua mãe e seu pai

viviam de peditório.

 

Gente assim do miserê

nunca soube o que é casório.

Ficou sendo João, pois esse

é nome de qualquer um.

Não carece excogitar,

pedir a doutor nenhum,

que a sentença vem do Céu,

não de lá do Barzabum.

 

De pequeno ficou órfão,

criado por seus dois manos.

Foi logo para o trabalho

com muitos outros fulanos

e seu muque, sem mentira,

era o de três otomanos.

Na enxada, quem que vencia

aquele tico de gente.

 

No boteco, se ele entrava

pra bochechar aguardente,

o saudavam com respeito

Deus lhe salve, meu parente.

João moço não enjeitava

parada com sertanejo.

Podiam brincar com ele

sem carregar no gracejo.

 

Dizia que homem covarde

não é cabra, é percevejo.

Um dia de calor desses

que tacam fogo no agreste,

João suava que suava

sem despir a sua veste.

Companheiro, essa camisa

não é coisa que moleste?

lhe perguntou um amigo

que estava de peito nu.

 

E João se calado estava

nem deu pio de nambu.

Ninguém nunca viu seu pêlo,

nem por trás do murundu.

João era muito avexado

na hora de tomar banho.

Punha tranca no barraco

fugindo a qualquer estranho.

 

Em Lajes nenhum varão

tinha recato tamanho.

João nas últimas semanas

entrou a sofrer de inchaço.

Mesmo assim arranca toco

sem se carpir de cansaço.

 

Um dia, não güenta mais,

exclama: O que é que eu faço?

Os manos vendo naquilo

coisa mei’ desimportante,

logo receitam de araque

meizinha sem variante

para qualquer macacoa:

Carece tomar purgante.

 

João entrou no purgativo

louco de dor e de medo

se entorcendo e contorcendo

na solidão do arvoredo

pois ele em sua aflição

lá se escondera bem cedo.

 

O gemido que exalava

do peito de João sozinho

alertou os seus dois manos

que foram ver de mansinho

como é que aquele bravo

se tornara tão fraquinho.

 

No chão de terra, essa terra

que a todos nós vai comer,

chorava uma criancinha

acabada de nascer,

E João, de peito desnudo,

acarinhava este ser.

 

Aquela cena imprevista

causou a maior surpresa.

O que tanto se ocultara

se mostrava sem defesa.

João deixara de ser João

por força da natureza.

 

A mulher surgia nele

ao mesmo tempo que o filho,

tal qual se brotassem junto

a espiga com o pé de milho,

ou como bala que estoura

sem se puxar o gatilho.

 

Se os manos levaram susto,

até eu, que apenas conto.

E o povo todo, assuntando

a estória ponto por ponto,

ficou em breve inteirado

do que aí vai sem desconto.

 

Nem menino nem menina

era João quando nasceu.

A mãe, sem saber ao certo,

o nome de João lhe deu,

dizendo: Vai vestir calça

e não saia que nem eu.

 

À proporção que crescia

feito animal na campina,

em João foi-se acentuando

a condição feminina,

mas ele jamais quis ser

tratado feito menina.

 

Pois nesse triste povoado

e cem léguas ao redor,

ser homem não é vantagem

mas ser mulher é pior.

Quem vê claro já conclui:

de dois males o menor.

 

Homem é grão de poeira

na estrada sem horizonte;

mulher nem chega a ser isso

e tem de baixar a fronte

ante as ruindades da vida,

de altura maior que um monte.

 

A sorte, se presenteia

a todos doença e fome,

para as mulheres capricha

num privilégio sem nome.

Colhe miséria maior

e diz à coitada: Tome.

 

É forma de escravidão

a infinita pobreza,

mas duas vezes escrava

é a mulher com certeza,

pois escrava de um escravo

pode haver maior dureza?

 

Por isso aquela mocinha

fez tudo para iludir

aos outros e ao seu destino.

Mas rola não é tapir

e chega lá um momento

da natureza explodir.

João vira Joana: acontecem

dessas coisas sem preceito.

No seu colo está Joãozinho

mamando leite de peito.

 

Pelo menos esse aqui

de ser homem tem direito.

De ser homem: de escolher

o seu próprio sofrimento

e de escrever com peixeira

a lei do seu mandamento

quando à falta de outra lei

ou eu fujo ou arrebento.

 

Joana desiste de tudo

que ganhara por mentira.

Sabe que agora lhe resta

apenas do saco a embira.

E nem mesmo lhe aproveita

esta minha pobre lira.

 

Saibam quantos deste caso

houverem ciência, que a vida

não anda, em favor e graça,

igualmente repartida,

e que dor ensombra a falta

de amor, de paz e comida.

 

Meu leitor (não eleitor,

que eu nada te peço a ti

senão me ler com paciência

de Minas ao Piauí):

tendo contado meu conto,

adeus, me despeço aqui.

 

 -- Carlos Drummond de Andrade--



publicado por quatroventos às 01:43
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