Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
A Lapa (relembrando, vendo Madame Satã - o filme)

Madame Satã existiu, claro. A Lapa existiu, ninguém tem dúvida. Mas a
"verdade", como as coisas eram, foram, ninguém jamais saberá. Já o mito
existe e é fortalecido a cada nova narrativa, a cada novo enfoque, sempre
mais fascinante. Acompanhei o mito Lapa, de versão em versão, chegar onde
chegou. Vi o mito Madame Satã, em meu tempo, com o forte auxílio do Jaguar -
mitômano da pesada, inventor de lendas maravilhosas, inclusive ele próprio -
chegar onde chegou: SATÃ, o filme.
Aqui vai pequeno tópico, que espero se torne legendário, visto por Milton,
pobre órfão abandonado nos bancos da Cinelândia.
Entre os 13 e os 20 anos vivi no centro do mundo. No Rio, capital do Brasil,
que ia do belo edifício art-noveau do Liceu de Artes e Ofícios (por trás
ficava O GLOBO, um jornalzinho), onde eu estudava, no Largo da Carioca,
junto da Galeria Cruzeiro dos enormes bares Nacional e da Brahma (no enorme
Hotel Avenida, dentro do qual passavam bondes) e dos cafés Nice e Belas
Artes, centro da boemia musical, profissional, amadora e roubadora. Em
frente, o teatro Fenix, onde, certa noite, um cantor me deixou encantado:
Juan Daniel, pai de Daniel Filho. Em frente também, o Hotel Central, onde
"paravam" políticos gaúchos, o mais famoso deles o machão-sem-medo Flores da
Cunha. Mais adiante, lá estavam o Municipal, a Câmara e o Senado, Palácio
Monroe, que a grosseria de Geisel demoliu. Por quê? Em volta, em toda parte,
cinemas, cinemas, cinemas. A Cinelândia.
Aí, rapazinho, convivi com alguns dos que se tornariam, ou já eram, os
maiores nomes da música popular brasileira - entre eles Lamartine, Orestes e
Nássara (também caricaturista genial), meu amigo até morrer. Ali eu andava,
vendo as confeitarias luxuosas (ao fundo cresciam os bancos, que as
destruiriam e substituiriam), os cinemas chiquérrimos (entrar sem gravata,
nem pensar!), o Passeio Público - e a Lapa!
Existiu mesmo esse antro de malandros, cafiolas, criminosos, barras pesadas
de toda espécie? Sei não. Subitamente, há bem pouco tempo, tive minhas
dúvidas. Dos 16 aos 20 anos morei na Rua das Marrecas. A Rua das Marrecas
era uma rua bem. Na esquina ficava o esplendor do cinema Metro com seu ar
refrigerado gelando até os transeuntes. Nela moravam o já famoso, refinado,
desenhista Alceu Pena (durante algum tempo ganhei uma grana enchendo os
fundos de seus quadrinhos e fazendo os versos de suas páginas), autor das
famosíssimas Garotas do Alceu. Morava também o desenhista e pintor Augusto
Rodrigues, e passando pela rua uma vez ou outra, já com algum sucesso e já
invejosamente chamado de analfabeto pelos queridos colegas, o perigoso
comunista (na época até que era um pouco) Jorge Amado. Comigo, no mesmo
prédio, pequeno, de três andares, durante dois anos morou Péricles Maranhão,
autor do Amigo da Onça. A superpopulação ainda estava sendo fabricada pelos
miseráveis do interior, sem nenhum gozo na vida a não ser o propriamente
dito.A Rua das Marrecas ficava a uma quadra da Lapa e a uma quadra da
Cinelândia. Exatamente no meio das duas. Nunca senti a diferença entre um
local e outro. Num eu ficava vendo mulheres fascinantes - andavam, ainda,
lindas, hieráticas, de chapéu. Na Cinelândia eu virava as noites batendo
papo com Orestes e Nássara. Na Lapa proper eu ia com gente da minha idade,
jogar sinuca no Café Indígena, bem na entrada do bairro, olhar um ou outro
cabaré chinfrim, já no interior do bairro - feito de uma dezena de ruas mais
ou menos estreitas -, ou arriscar uma ida à Conde Laje, onde havia um
puteiro (rendez vous) de "luxo" (para vocês verem o que era a Lapa baste
dizer que aqui as moças custavam 20 mil reis, na Zona custavam 5).
Na Lapa, parte de cima, no outeiro, morou o pacato Manoel Bandeira.
Curiosamente, a Lapa terminava no meio da Rua da Lapa. A partir dali morava
gente de família, gente fina - Pedro Nava morou ali perto durante quarenta
anos.
Andei e reandei por aquelas ruas. Durante o dia, no quiosque do ponto de
bondes, o pessoal pobre tomava toneladas de uma beberagem absolutamente
idiota, espécie de sal-de-frutas, o Hidrolitol. E a noite terminava,
pasmem!, bem no centro da Lapa, numa leiteria, a Bol (havia, na cidade, 251
leiterias e cafés-leiteria; pesquisei), que servia uma canja gorda,
deliciosa - pelo menos na memória.
Nunca vi, na Lapa dos cabarés, dos bares, dos clubes carnavalescos, dos
bambambãs e dos turunas, um assassinato, um assalto, uma briga - olhem, nem
mesmo uma bofetada. Pois é, foi ali, ou não foi ali?, no Capela, ou não foi
no Capela?, que Madame Satã, ou não foi Madame Satã?, matou, ou não matou?,
com um soco só!, ou uma facada?, o grande GTP, o sambista Geraldo Pereira
("O escurinho era um escuro direitinho/ Agora está com a mania de brigão")?
Tudo é lenda.
Nos anos 60 escrevi um musical - ensaiado no João Caetano, mas não
representado - sobre a Lapa. Nele, também atuado pela lenda, inventei uma
cena de balé em que Madame Satã enfrenta toda uma patrulha de Chapeuzinhos
Vermelhos (a famigerada Policial Especial, de Getúlio, outra lenda). A malta
só consegue dominar Satã quando vai passando um carregador português com seu
carro de mudanças - o popular burro-sem-rabo. Os policiais jogam Madame Satã
sobre o carrinho e, com ele solidamente amarrado, deixam o palco. Boa cena -
prum musical.
Nos anos 70, no Pasquim, entrevistamos Madame Satã, a essa altura já íntimo
(no bom sentido) do Jaguar, o maior mitólogo brasileiro da segunda metade do
século XX. Contei a Satã (está registrado) a cena teatral. Satã, um
fantasioso da pesada, imediatamente detalhou, para a patota fascinada, o seu
feito extraordinário. E as várias vezes em que aquilo tinha acontecido.


por Millôr Fernandes



publicado por quatroventos às 00:29
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